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Saturday, December 2, 2017

Wattpad

Bom, tenho lido tanto livro com origem na ferramenta online wattpad, que não resisti a dar uma espreitadela. E vai não vai, criei um perfil e publiquei os 11 mini contos que escrevi numa fase muito específica da minha vida, na qual me sentia bastante desanimada com a minha vida profissional.

Aqui fica o link, para quem quiser ler:


Tenho para mim que muitas outras histórias vão nascer aqui!

Friday, December 16, 2016

Delicioso bizarro: contos e outras histórias #3 Padrão perpétuo

A Maria revelou-se uma alma teimosa desde cedo. Ainda no ventre da mãe, foi caso único, surpreendendo com a sua extraordinária gestação de 15 meses. "Esta criança não quer nascer!", repetiam os médicos entre suores e elevado desespero, verificada a ineficiência do parto induzido e frustrada a tentativa de cesariana, recusando-se a barriga daquela mulher a rasgar-se mesmo perante os mais afiados instrumentos cirúrgicos.

Quando por fim achou que era tempo de vir ao mundo, apresentou-se sem chorar. Não fosse o vigor que colocara nas pequenas mãos ao agarrar o braço da enfermeira, e todos pensariam que havia nascido morta. Contra tudo o que seria de esperar, depois de realizados os devidos exames, concluiu-se a sua invejável saúde.

Porém, o espanto havia de fazer-se de novo convidado quando começou a falar e a escrever muito antes do tempo. Não só na própria língua como também em francês, inglês e alemão. "É um génio" diziam os doutores, não imaginando que o universo, numa perversa tentativa de equilíbrio das forças da natureza,  dotara aquela rapariga de um terrível padrão de comportamento: a atracção por tudo aquilo que ela própria sabia ser-lhe prejudicial.

Começou por ser apenas uma estranha propensão para o perigo. Teimava em agarrar as pontas das facas, entalava os dedos nos armários e nas gavetas, insistia em subir bancos e cadeiras para espreitar à janela. Como acção preventiva, livrou-se a mãe de tudo quanto era objecto cortante ou líquido tóxico que pudesse lembrar-se de ingerir, selando ainda a cadeado todos os móveis da casa. Inutilizou também a lareira e colocou portadas nas janelas. Rezou para que nenhum mal lhe chegasse.

Mas depressa deixou de poder mantê-la na sua redoma. Na escola, a Maria seguia arranjando conflitos, desafiando professores e experimentando as mais diversas proibições, chegando à fase adulta com um longo historial de relações abusivas. Não houve sermão, tareia ou castigo capaz de mudar aquela destrutiva característica. Como um condutor suicida, levava tudo até às últimas consequências.

Um dia, depois de vários meses sem aparecer à mãe, bateu-lhe à porta. Em lágrimas, queria esconder-se do namorado, um traficante de droga que a sufocava com um desmesurado sentimento de posse. Obsessivo, depressa deu com ela, bastando-lhe meia dúzia de juras de amor e promessas de mudança para que voltasse a cair em graça.

A mãe, vendo que se deixava levar de novo na cantiga do bandido, colocou-se entre os dois, pois se havia lição que a vida lhe ensinara era a de que ninguém muda por ninguém. A discussão estalou e os gritos  sucederam-se. O homem tentava reaver o brinquedo, a mulher defendia a cria e a Maria lançava agora impropérios contra a mãe,  que a impedia de estar com o homem que amava.
No meio da confusão, o traficante puxou de uma arma e baleou a mãe, que morreu ali mesmo.

O homem apanhou prisão perpétua.

A Maria amaldiçoou-o e lamuriou-se muito. Depois, juntou-se com um bêbado.

Thursday, November 24, 2016

Delicioso bizarro: contos e outras histórias #2 CR 80

Acabada de sair da universidade, a Raquel transbordava entusiasmo, mal podendo esperar por entrar no mercado de trabalho. Por ter sido excelente aluna, depressa conseguiu lugar numa das melhores empresas do país.

Desejosa por mostrar o seu valor, cumpria todo o serviço com imensa rapidez e perfeição. Ajudava os colegas sempre que podia, oferecia-se para fazer horas extraordinárias e nunca faltava ou chegava atrasada. Assim, depressa se tornou querida por todos.

A chefe, sabendo que tinha finalmente uma funcionária com a qual podia contar, foi delegando na Raquel todo o tipo de empreitadas. Contente com o voto de confiança, a rapariga esforçava-se como ninguém e tudo fazia para não desapontar. Até que o trabalho começou a chegar em demasia, sendo humanamente impossível de cumprir.

"Ainda não fez o que lhe mandei? Porquê?"; "Isto já devia estar pronto há uma semana"; "Eu não lhe disse que era urgente"?.

E enquanto a Raquel, afogada em tarefas, quase tinha um esgotamento, vários colegas passeavam pelo escritório, comentando a actualidade, o último derby ou queimando horas ao telefone com a família.

Cinco anos depois, a Raquel estava profundamente envelhecida. O cansaço era tal que a eficiência de outros tempos havia há muito desaparecido. Um dia, porque o stress do trabalho andava a afectar-lhe o sono, pediu para sair mais cedo, coisa que nunca acontecera. Mas era o seu dia de estar no atendimento ao público e por isso tinha de ser substituída. "Fale com os seus colegas", cuspiu a chefe. E as respostas não tardaram: "Não posso, tenho um papel para fazer"; "A Dra. Ana não me quer no atendimento"; "Estou doente"; "Também vou sair mais cedo"; "Não me pagam para isto"; "Tenho muito trabalho". 

Sem ninguém para substituí-la, não teve outra hipótese senão dirigir-se ao balcão.

Mas a Raquel, já não era a Raquel. E quando alguém lhe perguntou a que horas encerravam, ficou a contemplar o vazio. A pergunta ouviu-se de novo, mas o fenómeno já estava em curso. Uma força desconhecida começou a sugar a Raquel cirurgicamente na zona do coração, um buraco negro que se abria e crescia, engolindo primeiro a rapariga e depois a loja com os respectivos clientes, alastrando ainda a todo o edifício. Quando parecia que iria devorar tudo à sua volta, o acontecimento cessou, ficando circunscrito ao local onde antes se encontrava a empresa.

As autoridades registaram a ocorrência e a zona foi invadida por astrónomos, matemáticos e toda a espécie de curiosos. Mais tarde, devidamente estudado e catalogado, depressa deixou de ser novidade. Colocaram-se então protecções nos seus limites, e passou este poço sem fundo a ser local de peregrinação de homens e mulheres zangados com os seus amores, que largavam no abismo fotografias, anéis e qualquer outro objecto que guardasse as memórias que queriam esquecer.

Friday, September 23, 2016

Delicioso Bizarro: contos e outras histórias #1 História de vida

No bairro onde vivia, inaugurou-se um restaurante. Fanática por comida italiana e atraída pela decoração cuidada, pensou que seria o local ideal para uma jantarada com amigos ou família.

Os anos passaram e nunca lá foi.

O estabelecimento faliu.