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Friday, September 21, 2018

O livro do ano / Afonso Cruz

Sinopse:

Estas são páginas do diário de uma menina que carrega um jardim na cabeça, atira palavras aos pombos e sabe quanto tempo demora uma sombra a ficar madura.

Páginas feitas de memórias, para leitores de todas as idades.

Opinião:

Escrito em forma de diário, o livro atravessa as quatro estações e é um olhar inocente e poético sobre o mundo, escrito com simplicidade mas muito distante de lugares comuns. Só não sei se será tão infantil quanto o autor o imaginou, pois encontro muita profundidade em algumas passagens.

As ilustrações, inteiramente a preto e branco (para evitar grandes custos à editora), estão em completa harmonia com o texto, tornando-o  num belíssimo objecto artístico.

Estas são as minhas entradas favoritas:

14 de Julho
Às vezes trago um deserto para casa.
É quando me sinto sozinha.

15 de Julho
O meu irmão diz que é muito fácil fazer
um oásis no deserto.
Basta juntar água.

3 de Dezembro
O meu avô diz que a felicidade é uma péssima
corredora e que é fácil fugirmos dela.
E a tristeza?, perguntei.
É uma excelente corredora, respondeu ele.

12 de Janeiro
Começou a nevar no meu quarto. A minha mãe
Diz que Janeiro não acontece só lá fora.
E mandou-me limpar o quarto.

2 de Fevereiro
O meu avô passa muito tempo no parque. Diz
que o problema de envelhecer não é esquecermo-nos
das coisas, é que tudo se esqueça de nós.

Afonso Cruz é, de facto, um autor a seguir!

PNL 5º ano


Thursday, July 30, 2015

Capital / Afonso Cruz

Sinopse:

Um menino recebe um porquinho-mealheiro, de louça, com uma ranhura nas costas para que possa ser alimentado com capital. Com o amor e ternura que o menino lhe dedica, o porquinho depressa se torna um animal obeso, cheio de lucros fabulosos, e com dificuldade em controlar a sua rapacidade. Os anos passam e o porquinho vai crescendo, crescendo, crescendo, e um dia... um dia...

Opinião:

Só para irritar quem acha que a narrativa visual não é literatura, inauguro este espaço com o livro de Afonso Cruz, "Capital", que acaba de vencer por unanimidade o Prémio Nacional de Ilustração 2014.

Confesso que foi um livro que mexeu comigo, sobretudo tendo em conta a época de crise que vivemos, motivada pela ganância dos bancos.

Sem recurso à palavra, o autor leva-nos numa viagem que se inicia com a oferta de um mealheiro em forma de porquinho a uma criança, que acabará inevitavelmente por se tornar num adulto ambicioso, ávido de dinheiro e poder.

Excelente para reflectir sobre a educação baseada no materialismo, que parece ganhar adeptos de forma alucinante. Talvez sem querer, passamos a mensagem de que é preciso ser melhor do que o outro para se ser bem sucedido, ter um bom emprego e um bom ordenado. Infelizmente, ficam para segundo plano valores como o amor, a amizade e o respeito não só pelos outros como pela própria natureza.

A provar que uma imagem vale por mil palavras. E que não "vale tudo" por dinheiro.

PNL 3º ano